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Não diga que a canção está perdida
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida
Tente outra vez

Beba
Pois a água viva ainda está na fonte
Você tem dois pés para cruzar a ponte
Nada acabou, não não não não

Tente
Levante sua mão sedenta e recomece a andar
Não pense que a cabeça agüenta se você parar,
não não não não
Há uma voz que canta,
uma voz que dança,
uma voz que gira
Bailando no ar

Queira
Basta ser sincero e desejar profundo
Você será capaz de sacudir o mundo, vai
Tente outra vez

Tente
E não diga que a vitória está perdida
Se é de batalhas que se vive a vida
Tente outra vez


Link: http://www.vagalume.com.br/raul-seixas/tente-outra-vez.html#ixzz2k0W3PSyd

eu fui um beberrão
eu fui um beberrão

Parte do texto.

Eu fui um beberrão.

 

Dentro de um bar, um homem levantou-se, seu corpo franzino, cambaleante, peito arquejante, quando inalava o ar pelas narinas delatadas. O homem não percebeu que sua sombra criara a imagem de um menino, refletida na parede da casa e fixou o olhar, passando a conversar com ele.

    • Porque você me olha desse jeito? E essa cicatriz vermelha na sua fronte? E esse olhar chamejante como se fosse de uma serpente?

O homem abaixou a cabeça ao ver que o menino não desviara o olhar e nada falara. Depois ergueu a cabeça e continuou.

    • Tá bem! Sou um homem quase velho, sozinho e logo chegarei ao fim da vida. Tenho profunda dor no coração. Não tenho amigos nem parentes e aguardo com ansiedade a minha morte.. sem amigos, sem parentes e sem lar! Mas, nem sempre foi assim.

    • Um dia tambem tive uma esposa, a mais bela das criaturas. Olhos suaves, coração fiel e verdadeiro. Um dia seu coração foi torturado.

    • Eu tive uma vez, um filho, um menino inteligente e bonito, mas ele foi expulso das ruinas do meu lar... meu coração anseia saber se ele vive. Eu tinha um bebê doce e terno, mas estas mãos o destruiram. Não sou um assassino no sentido comum da palavra. Meu filho, se ainda vive me perdoará pelo tratamento que recebeu quando chegou ao mundo e a maldade que o tornou aleijado por toda a vida. Que Deus me perdoe pela ruína e pela desgraça que eu trouxe sobre mim e sobre os meus.

As pessoas em volta não conseguiam impedir que o homem parasse de contar a sua história e emocionava a todos. O homem continuava.

    • fui uma vez um fanático da garrafa. Eu fui um beberrão. Do homem respeitado e influente desci a degradação e pobreza, e arrastei comigo a minha família. Por anos vi as faces de minha esposa ficarem pálidas e seus passos tornarem cambaleantes. Eu a deixava nas tarefas do lar e ia as desordens do bar. Ela jamais se queixava, ainda que as crianças passassem fome...

derepente o homem põe a mão sobre a testa, olha para o céu e fica olhando a lua.

Sem mover um passo continuava:

    • uma noite de São João, eu voltei tarde pro barraco – que era o meu lar – o que alguma alma caridosa nos dera como habitação. Ela ainda estava acordada, com frio. Exigi comida e ela chorou pois não havia nada para comer...

o homem baixou o olhar e fizou na face do menino:

    • neste momento o bebê que estava no berço – um caixote de madeira – acordou e chorou com fome deixando a pobre mãe desesperada. Ela me disse: João, não temos comida! Fazem dois dias que não há mais nada para o bebê! Será que vamos morrer de fome?

Por um instante o homem se calou, deixou rolar algumas lágrimas e continuou:

    • aquela face triste e suplicante, aqueles olhos que choravam de agonia e o choro da criancinha, me enlouqueceram. E eu – sim eu – dei um soco no rosto dela e ela caiu no chão. Dentro de mim senti que fiz algo de errado. Nunca tinha batido na minha esposa, mas desta vez um terrível impulso me moveu e eu, embriagado como estava, soquei sua cabeça e rosto...

as pessoas em volta estavam caladas. O homem chorava copiosamente e continuava:

- minha esposa gritou: valha-me Deus! Não nos mate! Não faça mal ao Guilherme! E correu ao encontro do bebê e abraçou ele protegendo-o. Apanhei minha esposa pelos cabelos, puxei e empurrei ela na rua. Dei um grito de ódio. Estava muito frio. O gemido dela se misturava ao choro do nenê, lá fora. Fui até a cama improvisada onde dormia meu filho mais velho, arranquei-o dos trapos que o cobria e, mesmo esperneando e sem saber porque, abri a porta para jogá-lo fora.

na tentativa de se salvar ele gritou:

       * papaizinho! papaizinho!

e segurava com as pontas dos dedos em meu paletó. Ele estava apenas com a mão dentro de casa e o resto do corpo do lado de fora. E então, com uma maldade fria que me possuia, fechei a porta sobre seu bracinho e com o facão amputei-lhe a mão.

o homem parou de falar. Enfiou o rosto nas mãos, como se afastasse um terrível sonho. Se encurvou para frente, ficou imóvel e o suor escorria-lhe no rosto, pingando as gotas no chão. As pessoas em volta estavam tristes. Desejavam nunca estarem ali ouvindo essa revoltante história. O homem continuou:

       * Era manhã cedo quando acordei. O frio estava intenso.Tomei um copo de agua e procurei minha esposa no lugar da casa onde a via todas as manhãs. Senti a falta dela e tive uma sensação de pesadelo horrível. Rapidamente abri a porta e algo pesado caiu duro no chão. Esfreguei os olhos para certificar da visão horrível. Era minha esposa, morta, com o bebê no colo, enrolado com os cabelos, congelado. O espirito maternal fê-la encurvar sobre o bebê e com sua roupa envolvê-lo, deixando seu corpo desnudo, exposto a geada.

Outra vez o homem curvou a cabeça e chorou e todos os que estavam ali choraram com ele. Em voz baixa, patético, o coração quebrado, o homem concluiu:

       * Fui preso por longos anos, fora do meu juizo, delirei. Acordei e fui sentenciado por 10 anos de prisão. Mas nenhuma tortura podia ser comparada àquela dentro de mim. Ó Deus, não quero ser um fanático. Eu não quero ferir ninguem, mas enquanto eu viver, permite-me lutar para avisar a outros que não sigam o mesmo caminho. Este caminho é muito escuro, sombrio e traz muita agonia pra mm. Quero ver meu anjo - minha mulher - e meus filhos no além desse vale de lágrimas.

O homem acabrunhado, envergonhado e triste, sentou-se. As pessoas em volta permaneceram mudas por algum tempo, como se estivessem enfeitiçadas. Alguns choravam e dava pra ouvir o bater do coração, alvoroçado. O homem, então, apanhou uma folha de papel no chão, apanhou uma caneta, entregou para as pessoas assinarem o compromisso de tornarem-se abstêmios. E disse a um rapaz que estava próximo:

       * Assine moço! Os anjos assinariam. Eu assinaria 10.000 vezes e com sangue se pudesse trazer de volta os meus queridos.

Em seguida o rapaz assinou: Artur da Silva Sampaio. O homem olhou o rapaz, olhou o nome e ficou vermelho. Derepente ficou pálido, da cor da morte. E com a voz trêmula, meio gaga, disse:

       * Não pode ser!... Mas que estranho!... Você é o meu filho? O filho que perdi?

O rapaz ergueo o braço esquerdo e o homem viu que faltava a mão. Olharam-se extasiados por aguns instantes.

       * Meu Pai!.... Meu Filho!